sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Amém



Outro dia estava pensando sobre as pessoas e sobre situações de nossa vida e os encontros casuais. Estava lembrando daquelas pessoas que atravessam nossas vidas, e sobre outras que a sociedade exclui. Lembrei-me então de Beltrano. Ele era um morador de rua, e viveu durante muito tempo no movimentado centro da cidade. Ele era uma daquelas figurinhas conhecidas, e todos os moradores daquela cidade sabiam onde o encontrar. Ele havia fixado residência em um ponto do centro, e sempre que eu passava no local o encontrava lá. Ora estava limpando a sua “casa”, ora estava apenas sentado e pensativo, ou até mesmo deitado e dormindo. Boa tarde, um bom trabalho pro senhor. E eu sempre respondia. Muito obrigado Beltrano, pra você também. Que Jesus te abençoe. Amém. E assim foi durante muito tempo. Sempre que ele dizia isso eu sentia a sinceridade saindo de sua boca. E, de alguma forma, aquilo me confortava. Cheguei até mesmo a pensar que ele fosse o próprio Jesus Cristo me abençoando. Algumas vezes eu morria de rir dele, pois o vício da bebida alcoólica o acompanhou por muito tempo, e sempre que ele ingeria bebida ele andava torto pro lado esquerdo. Quando o Beltrano ta torto pro lado esquerdo não mexe com ele! E assim foram criando mitos a respeito de Beltrano, e sua “popularidade” foi crescendo. Muitos tinham medo, outros vergonha, e poucos solidariedade. Esse cara é doido, fica tacando pedra na gente. Por que ninguém ajuda esse pobre coitado? Credo, é um absurdo um cara desses aqui no centro da cidade. E até que, num final de ano, em um período chuvoso, o destino pos fim em sua vida. Em seus trinta e poucos anos, Beltrano mergulhou no seu mundo paralelo e partiu. Seu corpo foi encontrado às margens de um ribeirão que corta o centro da cidade. Credo, muito estranho a morte de Beltrano. Nada, ele deve ter bebido demais. Sei não, acho que afogaram ele. E então a sua morte passou imperceptível para muitos. Assim como sua vida.

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